terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Almas da Noite

Tenho o costume de, durante as minhas caminhadas noturnas com Branca e Suse, sentar em uma área do condomínio onde a luz é pouca e tem um vão onde vejo o céu e a Avenida Paralela ao longe. A paisagem me agrada, o ar é fresco e puro; me faz refletir. Ontem, eu não fiquei sozinha, alguém pediu licença e sentou-se ao meu lado.

Era um homem chamado Jorge, me pediu desculpas por ter bebido e disse que bebia para não se sentir tão sozinho. Ele me falou que a esposa morreu de câncer em 2003. Disse que não conseguia ficar no apartamento que foi do casal, mas também não conseguia vendê-lo. Se sentia culpado porque ele não foi no lugar dela, porque ele, tão cheio de pecados, ficou e ela foi embora. Disse que a vida não tinha mais sentido, mas que não poderia finalizar a própria vida e ficar vagando por aí. Entre um lamento e outro ele me cantava, dizendo que ele vivia só e precisava de alguém para preencher o vazio dele. Poderia ser uma desculpa, uma cantada, mas as lágrimas nos olhos quando ele falava da esposa eram reais. O sorriso que ele exibia quando lembrava dela também parecia verdadeiro.

Eu ouvi atentamente, mas não passei a mão pela cebeça, também procurei não julgar nem tirar conclusões sobre o que ele dizia. Preferi acreditar. Fui sincera e disse que nenhuma mulher interessante se aproximaria dele daquela forma, que antes de procurar alguém para preencher o vazio, era preciso encontrar-se, ser feliz sozinho. Que ele deveria buscar Deus, nem que fosse para brigar com Ele e só depois buscar alguma companhia. Ele me disse que se Deus existia ele nunca tinha conhecido, que Deus não ouvia ele. Eu respondi que ele nunca se permitiu conhecer Deus, mas que Deus existia e ouvia ele. Que ele tinha que parar no silêncio e ouvir a própria voz para conseguir ouvir Deus.

Também disse a ele, meio sem convicção, mas achando que era o melhor a dizer, que a esposa se foi porque já tinha cumprido sua missão e ele ainda tinha algo a cumprir. Não poderia ficar alí, esperando a morte chegar, se entregando daquela forma. Ele me falou que ela ensinou ele a amar, que antes ele só pensava em sexo e tinha uma vida errada, mas ela mostrou a ele o amor de verdade.

Também falei um pouco de mim, mas não entrei em detalhes, fiz apenas para que ele se sentir melhor porque perguntou. Eu também recebi conselhos sem pedir e ouvi com atenção. Ele disse que quando um homem ama e deseja uma mulher, ele corre atrás, faz tudo para tê-la ao lado. Se não é assim, não é amor. Ele deve ter razão, embora eu ainda ache que o amor não é tão simples assim.

A noite traz tantos medos, tantas almas perdidas, tanta gente que sofre por não ver sentido na vida e em si mesmo. Quantas vezes eu sentei sozinha naquele lugar e lamentei o vazio da minha vida, outras vezes orei cheia de fé e agredeci por tudo o que tinha. Em todas elas Deus veio sentar ao meu lado, me fazer companhia e eu apenas senti paz de espírito. Ontem eu me senti um pedacinho de Deus, podendo dizer para aquele homem, não o que ele queria ouvir, mas o que precisava ouvir e percebendo que ele fez o mesmo sem saber. É isso o que importa na vida, amar ao próximo e respeitá-lo, não quando está bem, mas quando mais se precisa.

Um comentário:

Luciana Guimarães disse...

Vai entender as formas que Deus utiliza para se manifestar... Bjs